Bullying

Bullying

O chamado Bullying, é como muitos sabem, uma forma de intimidação que algumas pessoas de fraco carater encontram de tentar “abafar” os seus medos em detrimento de outro que apresenta uma personalidade mais “fraca”, no meu ponto de vista.

Eu própria, na primeira pessoa, fui vitima deste flagelo enquanto criança. Não que eu fosse uma miuda com preconceitos mas era diferente dos outros. Talvez pela minha maturidade em relação à idade, sensibilidade sobre certos temas, talvez fosse, e isto já visto de um ponto de vista adulto, mais “à frente” que muitos dos meus colegas na época.

Pela incapacidade que esses meus colegas tinham, de compreender as minhas prespectivas, quer fosse pela poesia que eu escrevia, a prosa, a música, a habilidade no desenho, sentia que da parte deles havia um desconhecimento profundo desses temas que levavam a agredir-me como rotulavam de “esquisita”. O interesse pelas artes num meio urbano de pouca informação, onde não havia internet nem o fluxo de informação que existe hoje, levava a que os meus colegas me vissem como um “ovni”.

Naturalmente que, uma criança com 10 anos, 11, não entende o motivo da “perseguição”. faziam-me de tudo, desde colocar algo no meu banco da sala para ficar colado à minha roupa, a gozarem com os meus poemas, a dizerem que não tinha geito para o desenho…(irreal), que falava com os professores para dar “graxa” quando o que eu gostava era de comunicar, enfim, toda uma descoberta de personalidade e do mundo da minha parte, e uma inveja tremenda de quem me rodeava.

Talvez nem eu, ao fim de quase 30 anos, em que isto se passou, consigo hoje sequer explicar os motivos que levavam os meus colegas a gozar comigo. O que sei dizer é que, eu demorei tempo a lidar com isto e os meus pais não tiveram uma atitude de travão no que acontecia na escola, ou por não saberem como lidar ou porque não me soube explicar no meu tempo.

Hoje quando falo sobre este assunto com pessoas experientes na matéria, perguntam: mas falavas com os teus pais sobre este assunto? Eles sabiam o que te acontecia na escola?

Honestamente, não me lembro já de grande coisa. Das poucas coisas que me recordo com mais nitidez, foi um episódio de uma colega que me viu com um vestido que a minha tia me tinha trazido da Africa do Sul e que era diferente do que existia em Portugal, mas eu adorava o vestido, e essa colega, passou o dia a gozar comigo porque era uma betinha e a levantar-me a saia do vestido. Recordo-me que quando cheguei a casa ter contado a história, a única que me lembro ter contado de verdade, e que o meu irmão, mais velho 7 anos que eu, a rir-se disse-me: da próxima vez que essa menina implicar contigo diz-lhe que eu vou à escola e vou falar com os irmão dela!

Para mim aquilo pareceu-me uma lufada de ar fresco mas ao mesmo tempo invadia-me um medo terrível de imaginar sequer dizer isso àquela menina que a mim metia-me tanto medo…

Claro que o efeito não foi imediato, e cada dia que ia para a escola pensava, é hoje que vou dizer, é hoje, mas faltava-me sempre a coragem para o dia em que o ia dizer!

Um certo dia, levei o vestido novamente, e já sabia que ia ser motivo de gozo na turma, mas eu gostava TANTO do vestido…que enchi-me de coragem e pensei: “se ela gozar comigo, vai ver!”.

No recreio, entre algumas aulas, a “menina mázona” goza comigo mais uma vez e eu digo-lhe para parar com isso. Ela continua a gozar e eu, num ataque de raiva digo-lhe: “se não paras já, eu vou fazer queixa ao meu irmão e ele vem cá à escola para falar contigo e olha que ele é mais velho!!”

Ao que ela responde que não tem medo do meu irmão e eu volto a dizer:

“então faz outra vez que amanhã verás!!”

Com medo ou não, ela não voltou a implicar comigo, e começou um novo livro para mim.

Todos nós sabemos que, há situações e situações, mas também sabemos que, se não tomarmos uma posição a situação tende a agravar-se, e eu não falo de cor, eu sofri.

Hoje, enquanto mãe, tenho uma filha que sofre da mesma situação desde a primária e confesso que, no inicio, tive muitas dificuldades em lidar com o assunto, enquanto mãe e enquanto pessoa. Por um lado porque tinha sofrido com isso e entendia o que a minha filha sentia. Tentava perceber o motivo que levava os colegas e até a professora, sim, porque os professores também são pessoas e também tem os seus problemas que por vezes, deliberada ou indeliberadamente tem comportamentos de bullying com as crianças.

Ainda na primária, comecei por marcar uma reunião com a professora dela para entender, da prespectiva da professora, como era o comportamento da minha filha. Ela começa por me descrever uma criança completamente diferente daquilo que conhecia da minha filha o que me levou a começar a suspeitar.

Disse-lhe que ia falar com a minha filha e perceber se o comportamento dela era realmente como a professora dizia. Evidente que, as crianças na escola tem sempre um comportamento diferente em casa do que tem na escola, mas houve vários apontamentos que a professora fez que não me pareciam “normais”.

Por sugestão da professora, levei a minha filha a um psicólogo especialista em crianças, que fez a sua avaliação, levou-me uma fortuna, e me disse que a minha filha era uma criança perfeitamente normal com necessidade de desenvolvimento apenas, pois não tinha frequentado creches antes do inicio da idade escolar. Advertiu ainda que talvez a professora não estivesse habilitada ou com estado psicológico estável para se envolver com crianças que não tinham tido contacto com com a escola em estágios anteriores.

Ora isto veio reforçar as minhas suspeitas.

Voltei a agendar uma reunião com a professora, pois os recados da minha filha, por parte da professora eram constantes, que ela era indisciplinada, faltava ao respeito dos colegas, etc. Depois de falar com a minha filha e o que ela tinha falado com o psicólogo, percebi que a professora, perdia as “estribeiras” com as crianças, nomeadamente gritava com elas, atirava objectos para o ar quando se irritava e, em algumas situações, batia nas crianças ou agarrava-as pelo braço com grande violência verbal.

A minha filha, estava habituada a um clima “normal” e não reagia bem a gritos e temperamentos “fora de controle” e por isso tinha um comportamento com a professora tipo “por que razão estás a gritar?” e isso irritava a professora.

Nessa nova reunião, ainda no primeiro ano, fui surpreendida com uma reunião com ela e uma auxiliar de educação “como testemunha” do que eventualmente pudesse acontecer…

Contei o que o psicólogo “extraiu” da minha filha e confrontei-a com o facto de talvez não estar nas melhores condições psicológicas para dar aulas a crianças desta idade. Claro que a professora não gostou dos meus comentários e referiu que o problema era da minha filha e não dela.

Isto foi escalado à direção da escola mas como deverão entender, durante os 4 anos em que a minha filha teve aulas com ela foi um suplício de reuniões com ela e com a direção da escola ao ponto de eu ameaçar fazer queixa ao ministério da educação por incompetência para lecionar.

As coisas melhoraram ligeiramente, mas a verdade é que a minha filha, aos olhos dos outros meninos, era a menina “problemática” e a professora fazia questão de criar situações para fomentar esses pensamentos.

A titulo de exemplo, porque contado, tem sempre um caráter mais pacifico do que vivido na primeira pessoa. Um dia a minha filha distraída, bebeu água da sua garrafa e entornou um pouco de água sobre a mesa. Foi o “drama e o horror”. De tal ordem que deu a minha filha como exemplo aos outros para não seguir e colocou-a no recreio sozinha e proibiu os outros de falarem com ela. Resultado, quase até ao final do ano lectivo ninguém falava com a minha filha com medo de represálias da professora.

Chateada, fui à escola sem reunião marcada e exigi falar com a professora, que me indicaram indisponível. Á revelia, entrei pelo portão adentro e disse, “eu não saio daqui sem falar com a professora!”. Quando cheguei ao seu encontro, na sala de aula, tudo estava num reboliço, os miudos gritavam e atiravam coisas, enfim um descontrolo total e ainda era a primeira hora da manhã.

Fiz-lhe sinal, e disse-lhe que queria falar com ela. Referi que, mais uma vez, a minha filha tinha feito queixas.

Não fui ao encontro dela numa posição de contrapor mas ao contrário numa posição de a fazer entender como o seu comportamento estava a prejudicar não só o desenvolvimento da minha filha mas também a por em causa o seu relacionamento com as outras crianças que começaram a ter medo de se relacionar com ela com medo de represália da professora.

Falou-me que “não era bem assim como a minha filha contava as coisas”. Enfim, tivemos uma conversa curta, dado os disturbios que nos circundavam, mas pedi-lhe que tivesse atenção aos seus comportamentos e, de uma vez por todas, entendesse que o seu comportamento para estas crianças tinha que ter uma componente mais atenciosa e de carinho ao invés de agressividade. Ao mesmo tempo, que falasse com a turma sobre o “não falar com a minha filha” porque não era uma atitude correcta e que me prometeu fazer. Estávamos mesmo na reta final do 4 ano, ela falou com a turma mas já era tarde…

(continua).

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