A idade da solidão

By Vera Ribeiro

“(…) era uma rapariga com muita genica!! Sabes, naquele tempo não havia dinheiro para mandar os garotos para a escola, era preciso trazer dinheiro para casa. Mas eu queria muito estudar e perto da casa onde vivia havia uma escola e eu todos os dias pensava o quanto gostava de ir para aquela escola, aprender a ler, escrever para poder ler livros e brincar com os outros garotos. Via as meninas a entrarem muito bem vestidas e queria ser como uma delas.

Um dia, à “surrapa” da minha mãe, sai de casa e fui à tal escola. – Que idade tinha, vó?- perguntava eu. – Devia ter uns 12 anos. Maltrapilha, sem sapatos, o cabelo despenteado mas arranjado, bati naquela enorme porta de madeira trabalhada. Toda eu tremia mas queria tanto ir para aquela escola… A porta abre a ranger um pouco, de dentro vem uma Senhora, elegante, com uma corrente grande caída no seu lindo vestido. Olha para mim e pergunta-me o que estava ali a fazer. Eu tinha um ar muito querido e gostava muito de falar com as pessoas, sabes, era muito espontânea e isso cativava as pessoas e via-se que era genuíno.

Expliquei a essa senhora que era muito pobre, vivia sozinha com a minha mãe e com a minha irmã não sabia ler nem escrever mas tinha o grande sonho de um dia o poder fazer.

A Senhora comovida disse que tinha que falar com a minha mãe para saber se podia entrar na escola e eu filha, fiquei tão feliz mas ao mesmo tempo tão assustada. Se ela fosse falar com a minha mãe a minha mãe ia dizer que eu tinha era que ir trabalhar e não estudar, isso era para os outros não para mim. E eu perguntava-me tantas vezes, porquê? Porque é que os outros podem estudar e eu não?? Depois a senhora dizia, também tens que arranjar uns sapatos, não podes entrar sem sapatos.(…)”

Já não me recordo bem do resto da história, sei que ela entrou nesse colégio algures em 1932 onde os estudos eram para os meninos ricos e não para os pobres mas a minha avó sempre foi uma lutadora pelo que queria. Estudou nessa escola durante 2 anos e depois foi servir para uma casa de uma pessoa muito rica onde diz ter vivido os melhores anos da vida dela. Essa familia, em determinado momento foi viver para África e ela teve que ir servir para outras casas.

“Quero morrer filha, já não estou cá a fazer nada, o meu coração só não pára porque tem um pilha (…)”- e diz isso rindo-se.

Sentada num pequeno pátio do lar onde vive, diz-me que nunca pensou que um dia fosse esperar para morrer. Aos 92 anos a minha avó sente -se no fim do pavio, mas um pavio que nunca mais acaba de arder, lento, lento…. “porque Deus não me leva? Ainda não chegou a minha vez não é?- sorrindo.”

A idade da solidão assusta-me. Pensar que, tantas outras pessoas como a minha avó, chegam a uma determinada idade em que já não são capazes de cuidar de si mesmos e tem que ser entregues aos cuidados de pessoas que não conhecem, fora da sua casa, fora do seu habitat, sempre a olhar para a porta de entrada à espera da visita de alguém que por vezes, vai espaçando, espaçando no tempo, até que são abandonados- muitos deles- nesses lares, onde vem a vida passar devagarinho a cada dia que passa.

Hoje fui visitá-la, e contava-me que da janela dela, vê uma palmeira e um pinheiro pequenos a crescer. “- Sabes, acho que os vou ver crescer…”- contava-me. “Isto aqui à volta é muito bonito, parece ser. Tem muitas montanhas e vejo uma ponte com arcos e muitas, muitas árvores. Sabes, acho que isto aqui é muito bonito.”

Sim vó, está no meio da serra da Arrábida. Não é a avó que gosta de plantas? Deve gostar disto! Tem montanhas, praia e tudo é muito verdejante! – comentava eu.

Enquanto me contava algumas peripécias do lar, acariciava as suas mãos, doces, suaves que me apertavam de volta muito feliz por me ver.

Eu- As suas mãos estão tão suaves, vó? Põe algum creme?

Avó- Não filha, eu já não faço nada! Tem que estar suaves…- sorrindo. Sabes filha, isto é uma grande solidão.

Ao mesmo tempo que uma alegria me inunda por lhe poder proporcionar alguns momentos de companhia também penso o quanto é triste sermos arrancados da nossa independência, da nossa casa, da nossa familia, isolados. É assustador pensar a solidão que se sente. “Uma vida de tristeza e alguns momentos de alegria”- conta-me.

Muita amargura na família por não ter conseguido proporcionar uma vida de maior qualidade mas como ela me diz: “sabe Deus o que me esforcei para ter comer à mesa e que as minhas filhas fossem virgens para o casamento e para que o meu filho não fosse para às ruas!! Tinha trinta anos quando fiquei viúva com três filhos, conta-me. Não foi fácil filha, mas eles acham que fui má mãe, especialmente a tua mãe. Se eles tivessem tido uma mãe como a minha, saberiam o que era uma má mãe. Olha, se não tivesse falado com o sr da casa pia, o eu tio, que Deus o tenha, hoje era um malandro porque ele já era mas a Casa Pia fez dele um homem! Orgulho-me muito disso e de ter entregue as minhas filhas virgens ao casamento! Eu com 3 filhos em casa e eu a trabalhar como conseguia dar-lhes educação!! Ai filha, a vida é tão difícil…”- e dá mais uma gargalhada.

É impressionante a garra desta mulher, a capacidade que tem de se fazer a retrospectiva da sua vida que em pouco foi feliz. Viu dois maridos morrerem, viúva aos trinta anos com 3 filhos, alugou os quartos da sua casa para poder ter dinheiro para pagar as contas e a renda da casa, viu um neto homem morrer ( o meu irmão à 5 anos), um filho homem morrer (este ano) e diz que pede a DEUS que leve todos os dias porque não está cá a fazer nada.

Despede-se de mim agarrando as minhas mãos e dando-me vários beijinhos na bochecha, agradece-me muito a visita e vejo-a entrar para sala do lar onde estão muitos outros, sós…, nos cadeirões à espera que a vida os leve…

I was a very energetic girl !! You know, at that time there was no money to send the boys to school, you had to bring money home. But I wanted to study a lot and near the house where I lived there was a school and every day I thought how much I liked going to that school, learning to read, writing so I could read books and play with the other kids. I saw the girls coming in very well dressed and wanted to be like one of them.”

One day, without my mother notice, I left the house and went to that school. “How old were you, Grandma?” I asked. – I should had about 12 years. With poor clothes, without shoes, hair tousled but arranged, I knock that huge wooden door. All of me trembled but wanted so badly to go to that school … The door opens, creak a little, from inside comes a lady, elegant, with a great chain fallen in her beautiful dress. Look at me and ask me what I was doing there. I had a very dear air and I enjoyed talking to people, you know, I was very spontaneous and it captivated people and it was seen as genuine and it was.

I explained to this lady that I was very poor, lived alone with my mother and sister didn’t know how to read or write but had the great dream of one day being able to do it.

The lady moved ,said that she had to talk to my mother to see if I could go to school. I was so happy but at the same time so scared. If she were to talk to my mother my mother would say that I had to go to work and not to study, this was for others not for me. And I asked myself so many times, why? Why can others study and I can not? Then the lady also said, you have to get some shoes, you can not go in without shoes.

I can recall very well the rest of the story, I know she entered that college sometime in 1932 where the studies were for the rich boys and girls not for the poor people but my grandmother was always a fighter for what she wanted. She studied at this school for 2 years I believe and then went to a very rich person’s home as a room maid for the children where she says she lived the best years of her life. This family at one point went to live in Africa and she had to go and serve other houses not so distinguish.

“I want to die, my child. I’m not doing anything here, my heart just does not stop because it has a battery …” – and says this laughing.

Sitting on a small courtyard in the home where she lives now, she tells me she never thought she would had to wait to die one day. At the age of 92 my grandmother feels at the end of the wick, but a wick that never burns out, is slow burning, slow … “Why does not God take me? It’s not my turn yet, is it?” – Smiling. “

The age of loneliness scares me. To think that so many other people as my grandmother reach a certain age when they are no longer able to take care of themselves and have to be delivered to the care of people they do not know outside their home outside their habitat, always looking at the front door waiting for the visit of someone who sometimes goes away, spacing in time, until they are abandoned – many of them – in these homes, where life comes slowly pass with each passing day.

Today I went to visit her, and she told me that from her window, she sees a small palm tree and pine growing. “You know, I think I’m going to see them grow …” she told me. “There are lots of mountains and I see a bridge with arches and many, many trees, you know, I think this is very beautiful here.”

yes, it’s in the middle of the Arrábida mountain range. Is not grandmother who likes plants? You must like this! It has mountains, beach and everything is very green! I said.

While she tells me some of the happenings inside her home, I caressed her sweet, soft hands that squeezed me back for such happiness to see me.

I- Your hands are so soft, grandma. Do you put some cream on?

Grandma- No my child, I do not do anything! It has to be smooth … – smiling. You know, my child, this is a great loneliness...”

At the same time that a joy floods me of giving her some moments of company, I also think how sad it is to be torn from our independence, our house, our family, be isolated. It’s scary to think of the loneliness you must feel. “A life of sadness and some moments of joy” – she tells me.

A lot of bitterness in the family for not being able to provide a higher quality life, but as she tells me: “God knows what I tried to have food at the table and have my daughters virgins for marriage and my son not turn into a thief, I turn to be widow with thirty years old with three children to feed, she told me. It was not easy, but they think I was a bad mother, especially your mother.If they had a mother like I had, they would know what is a bad mother, and if I had not spoken to the housekeeper of Casa Pia to receive your uncle at the age of 9, God bless him, he would be a scoundrel today because Casa Pia made him a man! To have delivered my daughters virgins to the marriage! I had 3 small children at home and I had to work , how could I give them education !! My child, life is so difficult … “- and one more laugh.

It is amazing the claw of this woman, the capacity that has to do the retrospective of her life that was soon unhappy. She saw two husbands die, become widow at the age of thirty with three small children, rented the rooms of her house to be able to pay the bills and the rent, saw a grandson die (my brother at 5 year ago), her son die (this year) and says that she asks God to take her because she feels she is doing anything here.

She said goodbye, grabbed my hands and gave me several kisses on the cheek, thanked me very much for the visit, and I saw her enter the living room of the home where many others are alone.., in the high chairs waiting for life take them

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