O silêncio ensurdecedor da quarentena

É inquietante, olhar para a janela, ao final de mais um dia de quarentena e ter medo de sair. Não ouvir as crianças brincar na rua, os carros a businar, as pessoas falarem na rua, a azáfama do dia-a-dia, o movimento, a agitação.

Olhar para a rua deserta, um silêncio ensurdecedor assombra as ruas. Uma ou outra pessoa se vê passar como se vivessem num planeta diferente do meu. Dá-me um aperto no peito, sentindo quase que, perdi a minha liberdade.

Ontem à noite quando olhava para a janela, imaginei todas aquelas pessoas que viveram pandemias, guerras, e catástrofes que foram obrigadas a ficar em casa, por meses, anos.

Só estou em casa há 7 dias de isolamento voluntário, mas cada dia que passa parece uma repetição do anterior e não tenho ideia de quando isto vai acabar. As notícias da rádio, TV e internet são avassaladoras um pouco por todo o mundo. Quando mais ouvimos mais a ansiedade cresce. A crescente preocupação com os nossos mais próximos, a dúvida de uns 14 dias que tarda em passar para perceber se estamos contagiados ou não, e quando é que tudo isto vai acabar.

Nunca pensei nisto, de me ver numa situação de não poder sair à rua por razões de saúde pública ou catastrofes. Parece-me que na generalidade quando se vêm notícias do que acontece nos outros paises ou lugares, sendo longe de nós, que o nosso subconsciente nos remete para uma especie de filme. É real, mas ao mesmo tempo distante, diria que se traduz numa realidade irreal.

Creio que esta situação nos trará a todos momentos de reflexão. Reflectir sobre o estado do mundo, da nossa relação com os outros, do valor que damos aos bens materiais, as nossas relações, o amor, a amizade, a tolerância, a ajuda ao próximo. Penso que, no fim de tudo isto, seremos todos mais unidos. Ou não? Será que o mundo vai mudar, nós vamos mudar?

Não quero ter uma leitura holocaústica, no entanto, tenho as minhas reservas quanto à evolução de toda esta situação no curto/ médio prazo. É um facto que temos muita tecnologia ao nosso dispor que nos vai permitir desenvolver mais rápidamente formas de combater a pandemia mas algo que vai esgotar, são os recursos físicos de quem realmente está a fazer a diferença neste momento, os médicos e todo o pessoal de saúde que estão na linha da frente de ataque, é uma das coisas que me preocupa. Se os recursos físicos se esgotarem…

Quando tudo isto acabar, vamos certamente todos ter uma visão muito límpida sobre afinal que valores se rege a nossa sociedade, como era e como está e unirmo-nos-emos, enquanto nações, enquanto habitantes deste planeta no rumo que queremos seguir daqui em diante. Há um provébio português que diz, «só quando a casa é assaltada é que se põe trancas à porta..». Poderá ser este, o momento de viragem de mentalidades.

Por isto, decidi não ver mais notícias além de uma vez por dia, para evitar alimentar a minha ansiedade. De manhã vejo no telemóvel as noticias dos cabeçalhos. Ligo o meu computador, conecto-me à empresa e começo a trabalhar às 7h, até à hora de almoço. Leio algumas revistas ao final do dia, que ainda trouxe para casa antes de se ter instalado a Epidemia em Portugal e são essas que me têm acompanhado. Ler opiniões de várias áreas, outros assuntos também que não esta pandemia mas que sejam úteis. Por exemplo, um artigo que vinha numa revista era as pandemias que o nosso planeta já teve, o que aconteceu, porque aconteceu, como as pessoas reagiram, o que foi feito depois. Uma história muito interessante é a da Peste Negra. Foi uma cidade por iniciativa própria que se isolou com pedras à sua volta que evitou que a doença continuasse. Os bens eram passados por buracos nas pedras e as moedas eram mergulhadas em vinagre. E afinal, a origem da bactéria eram as pulgas que tinham viajado em tecidos trazidos de longe mas infectou e matou milhões de pessoas. São liçoes que podemos tirar do passados que nos podem ajudar no presente, ao invés de ficarmos presos ao momento.

Não posso dizer que estou indiferente ou a negar o que está acontecer, não. Estou-me a proteger da minha incapacidade de gerir este stress. Também, a tentar não me desgastar a ouvir o que se diz em todos os canais por tantas pessoas. Quer daqueles que querem minimizar o impacto do medo na sociedade e não dizem tudo, diria quase de forma criminosa; como daqueles que não dizem coisa com coisa. Hoje o vírus comporta-se de uma maneira, amanhã pode ser de outra. Semidades, como recentemente assisti na RTP, em que, se a pessoa não estava seníl, certamente tinha bebido em excesso ao almoço, pois cada vez que falava, contradizia-se, retive alguns momentos: «(..) uso de máscaras é só para quem está infectado(…)» mas, digo eu, ..se as pessoas não sabem que estão infectadas e não usam máscaras, quer dizer que nos andamos a contaminar uns aos outros sem o uso delas, não é assim? E porque é que todos os outros países se protegem com máscaras e nós não? Será que é porque não há máscaras para vender?? “o vírus vive 3 horas no ar(..)”. Tanto quanto se tem dito, o vírus viaja pelas gotículas de saliva ou tosse, as quais, pela lei da gravidade, não permanecem no ar, não por 3 horas penso eu,…serão atraídas para as superficies em seu redor: mesas, paredes, chão, etc.. Muitas opiniões, muitos especialistas, todos querem dar o seu contributo mas quem estiver atento apercebesse que há uma insegurança enorme na contenção do vírus porque se sabe muito pouco ou nada sobre ele e que leva à nossa insegurança.

Bom, quero com isto dizer que, para mim basta! Decidi fazer uma dieta de notícias, dedicar-me aos meus leitores produzindo informação que seja útil , desabafar sobre os dias que vão passando, partilhar momentos, ainda que em tom de monólogo mas dizer-lhe o que tenho feito para ultrapassar a solidão do isolamento, tal como muitas pessoas neste momento pelo mundo que se encontram em casa de quarentena.

Vou procurar manter-me focada no meu trabalho, arrumar aquelas gavetas ou armários que há muito precisavam de ser arrumados, fazer um inventário das mercerias que tenho em casa para melhor gerir o seu consumo e, quando me apetecer vou desenhar a tinta da china, cuja tinta já estava dentro da caixa sei lá há uns 4 anos sem abrir, ler os livros que comprei e que estiveram a enfeitar a prateleira, ou, aquele quadro a óleo que há muito queria pintar, todas as aquelas coisas que muitas vezes nos queixamos que “não temos tempo”. Pois agora, tempo não falta. Deveremos pegar neste tempo e multiplicá-lo, em conhecimento, em criatividade, em fazer aquelas coisas que realmenre gostamos de fazer e sempre usámos a desculpa fácil do..não tenho tempo, mimar um pouco nós próprios e que nos rodeia. Quem sabe desta forma, conseguimos superar a inquetante solidão da quarentena sem tanta dificuldade.

Até breve

Vera Ribeiro

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